G1 "Líder do Placebo fala de drogas e de sair do armário: Não me arrependo", Apr'14

14/04/2014
Rodrigo Ortega


Brian Molko diz que 'abraçar' consumo foi 'aprendizado' para banda de rock.
Ele expôs bissexualidade e volta abordar tema; trio toca em SP na segunda.


"Não me arrependo de nada", diz Brian Molko, líder do Placebo, em dois trechos de entrevista do G1. O primeiro é sobre o abuso de drogas no início da carreira. O cantor belga, de 41 anos, se considera "sobrevivente". O segundo comentário é sobre a exposição de sua bissexualidade. Ele chegou a dizer que não deveria ter comentado tanto o tema à imprensa, para não tirar o foco da música. Hoje, reavalia: "É minha história, então por que se arrepender?"

Drogas e sexo são temas recorrentes das músicas do Placebo, com estilo calcado no glam rock de David Bowie e T. Rex. A banda foi formada em 1994, em Londres. O trio se apresenta na segunda-feira (14), em São Paulo, no Credicard Hall. A banda faz turnê que divulga seu sétimo álbum, "Loud like love", lançado em 2013 (veja serviço abaixo).

Molko só é crítico com o passado ao analisar os próprios discos. A turnê tem poucas faixas dos primeiros – "Placebo" (1996) e "Without you I'm nothing" (1998) – e muitas de "Loud like love". "Escrevemos coisas muito inocentes, superficiais e desinteressantes. Poderíamos ser mais carreiristas e apenas dar aos fãs os sucessos. Mas não seria nossa verdade", afirma.

G1 - Por que não tocam muitas dos dois primeiros discos? Você já disse ter 'relação disfuncional' com eles...

Brian Molko - Não só com os dois primeiros discos. Em um show do Placebo, você vai ver a gente tocando as músicas com as quais temos conexão emocional. Não escolhemos o que teve mais sucesso. Seria um ato mecânico, mentiroso. Temos a tendência de olhar para trás e ver erros, coisas que poderíamos melhorar. Escrevemos coisas muito inocentes, superficiais e desinteressantes. Poderíamos ser mais carreiristas e apenas dar aos fãs os sucessos, mas não seria nossa verdade. Se buscássemos lucro, faríamos outras escolhas na vida.

G1 - Na nova música "Bosco", você descreve efeitos ruins de álcool e drogas em uma pessoa. Que efeitos tiveram o álcool e as drogas na sua carreira?

Brian Molko - Fomos sortudos de termos um certo estilo de vida, abraçado essa vida de maneira entusiasta no começo da carreira, e continuar intactos. Sobrevivemos para contar a história. Muitas pessoas não conseguiram. Esse estilo de vida não é o que eu levo hoje. Dito isso, eu não mudaria nada, não me arrependo de nada. Foi uma experiência de aprendizado.

G1 - Em outra nova, "Too many friends", você fala sobre pessoas que têm muitos amigos em redes sociais e sozinhas ainda assim. Por que esse tema?

Brian Molko - Porque sou um observador perspicaz das mudanças na sociedade. As transformações tecnológicas desde que sou criança são incríveis. Eu cresci preso entre paredes e experimentei a explosão da internet. A exposição a redes sociais é relevante. A tecnologia tomou uma parte tão grande de nossas vidas, que é difícil não abordar este assunto.

G1 - Você parece pessimista em relação a redes sociais.

Brian Molko - O lance da internet é que você tem a capacidade de se editar, se glamourizar, se mostrar ao mundo como gostaria de ser visto. Isso destrói os riscos e a vulnerabilidade. Porque para ter uma relação ou uma conversa em tempo real, no mundo físico, com outro ser humano na sua frente, você não pode se projetar de maneira tão controlada. Na internet você também pode ter comportamentos irritantes e repugnantes, que não conseguiria ter na vida real, pois teria que se responsabilizar. Acho muito interessante.

G1 - Por que o verso 'meu computador acha que sou gay / joguei aquele lixo fora'?

Brian Molko - Aconteceu comigo. Sabe como sites de busca e redes sociais seguem você? Meu computador mostrava só links para homens heterossexuais. Fiz algo no dia anterior, não lembro o quê, mas de repente começou a mostrar anúncios para gays. Achei interessante e pensei: “Meu computador pensa que sou gay hoje”.

Em paralelo, meus amigos disseram que pararam de aceitar pedidos de amizade na web, pois já têm muitas. Pensei no valor das amizades hoje. As duas experiências me levaram a escrever sobre alguém que se sente sozinho. Nos anos 80, era comum – e até clichê – cantar sobre pessoas sentadas ao lado do telefone, esperando tocar. Porque você tinha que esperar. Agora não. A tecnologia muda, a linguagem para expressar sentimentos também muda.

G1 - Você já disse que se arrependia de ter falado tanto da sua bissexualidade no início da carreira. O verso pode ser uma metáfora para os comentários sobre isso na web?

Brian Molko - Não, eu não sou tão inseguro e autocentrado. Não faria essa conexão. Eu disso isso na época [entrevista em 2006], mas não sei se concordo hoje. Dei milhares de entrevistas em vinte anos, e não concordo com tudo que disse. Provavelmente vou me contradizer muito. Na época me arrependia, mas agora, sinceramente, com a perspectiva de hoje, não me arrependo de m... nenhuma. Isso expressa o que sou. Essa é minha história, então porque me arrepender? É o que penso hoje. Em um ano, posso dizer algo totalmente diferente.